domingo, 19 de janeiro de 2014
19/01/2014| Por Diego Zanchetta, Enviado Especial, estadão.com.br
42 sobreviventes ainda lutam para respirar
Tratamento de intoxicados por fumaça vai até o fim de 2017
SANTA MARIA - Kellen Ferreira, de 20 anos, estudante de Terapia Ocupacional na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), está entre os 42 sobreviventes da boate Kiss socorridos em estado grave na madrugada da tragédia. Quase um ano após aquele 27 de janeiro, todos ainda lutam para expelir a fuligem acumulada nos pulmões, contaminados pela fumaça tóxica que matou, por asfixia, a maior parte das 242 vítimas do incêndio. A voz deles perdeu potência, a tosse nunca para e o cansaço chega depois de poucos passos.
Alguns sobreviventes passam o dia com um gosto de "borracha queimada" na boca. Outros relatam sentir, quando respiram, o mesmo cheiro da fumaça que tomou conta da boate em menos de três minutos - eles tomam medicamento para expelir um catarro negro. "É como se eles tivessem fumado por mais de cem anos", diz Ana Cervi Prado, médica coordenadora do Centro Integrado de Assistência às Vítimas de Acidente (Ciava), um ambulatório montado exclusivamente para recuperar os feridos, onde vão ficar por mais cinco anos.
Kellen tenta retomar os movimentos das mãos, além de passar por inalações diárias. Ela se tornou um dos símbolos dos sobreviventes. Durante 78 dias - 20 deles em coma, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) -, a estudante ficou internada em Porto Alegre, com queimaduras de terceiro grau em 20% do corpo. A jovem de 20 anos teve parte da perna direita amputada e enxertos aplicados nos braços. Antes de deixar o hospital, ficou sabendo que duas de suas melhores amigas não conseguiram se salvar.
Quase um ano após aquela madrugada de horror, a jovem de Alegrete voltou às aulas, está novamente morando sozinha e parece pouco se importar com as cicatrizes. "Estou melhorando, até em boate eu já fui de novo, acredita? Só que agora eu fico bem perto da porta de saída", conta Kellen. O que ela mais quer de volta são os cabelos longos. "Os médicos falaram que foi meu cabelo comprido que salvou as costas das queimaduras."
De muletas e tosse constante, Kellen tenta seguir com bom humor uma rotina de exames, fisioterapia e atendimento psicológico no Ciava, onde há 28 profissionais. Das 145 pessoas hospitalizadas após o incêndio, 71 passaram pelo centro, das quais 29 tiveram alta. A fumaça liberada pela espuma sintética, que deixou as sequelas nos sobreviventes, é de uso proibido pela legislação do Rio Grande do Sul e tinha gás cianídrico, altamente tóxico. Foi um gás mortal, segundo a polícia.
Amizades e nova vida. É na sala de espera do ambulatório, no Hospital Universitário da UFSM, que muitos sobreviventes se tornaram amigos e confidentes. É ali que os jovens, com uma idade média de 23 anos, encontram sintonia e compreensão para desabafos de uma vida que não para de oscilar entre momentos de alegria, pela nova chance de viver, e a angústia gerada por uma rotina pouco comum entre os universitários.
No Ciava, Kellen, por exemplo, conheceu Bárbara Feledeto, de 24 anos, que no dia da tragédia completava 1 mês de fim de namoro. Depois, nos 40 dias que ficou internada entre a vida e a morte em Porto Alegre, o ex-namorado se tornou a pessoa mais presente. Em julho, reataram. Agora, casada, está grávida de 4 meses e ainda trata de uma lesão pulmonar grave.
"Os primeiros seis meses de recuperação foram muito difíceis. Mas é incrível como a gravidez colocou novo rumo na minha vida e trouxe uma esperança de tudo novo", diz Bárbara.
Recomeço. Desde outubro, quando começou a namorar, o tratamento contra a lesão no pulmão se tornou menos angustiante para a estudante Camille Kirinus, de 22 anos, que ficou 9 dias na UTI após o incêndio. Na tragédia, ela perdeu 13 amigas. "Ele não sai do meu lado, me apoia demais. Estou feliz."
Camille espera ganhar autorização médica para praticar esportes e mergulhar no mar. Kellen também não vê a hora de poder ir à praia.
"Enquanto isso, em casa, chorando na minha cama, é que não vou ficar. Quero terminar minha faculdade. Quem sabe não consigo fazer mestrado no exterior, né?"
Ninguém está preso e não houve indenizações
Prestes a completar um ano, a tragédia não tem presos nem agentes públicos responsabilizados.
Prestes a completar um ano, a tragédia não tem presos nem agentes públicos responsabilizados. Até agora, nenhuma família ou sobrevivente foi indenizado e não existe previsão para o julgamento das oito pessoas indiciadas pelo incêndio. Presos logo após o acidente, dois sócios da boate e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira (um deles responsável pelo uso do sinalizador que provocou o fogo) estão em liberdade.
A impunidade tem gerado um clima de revolta na cidade. Familiares das vítimas prometem acampar na frente da sede do Ministério Público Estadual (MPE) em protesto, a partir desta semana. No centro da cidade, uma tenda com as fotos dos 242 mortos foi montada por voluntários.
Um congresso com a participação de argentinos e americanos que perderam parentes em tragédias, marcado para os dias 26 e 27, promete virar um ato de desagravo.
"Estamos há um ano desamparados pelo Judiciário. Quem deveria nos defender luta para proteger os culpados", disparou Sérgio Kraus, militar da reserva de 50 anos, pai de Augusto Kraus, de 20, uma das vítimas. Ele é um dos coordenadores da Associação de Familiares de Vítimas de Santa Maria, que reúne 150 pais de vítimas.
Para a Polícia Civil e o MPE, porém, não existe mais chances de algum agente público que cuidava da fiscalização de casas noturnas ser responsabilizado criminalmente. Em abril, o MPE barrou o indiciamento por homicídio doloso (com intenção de matar) de três secretários e de um fiscal.
"Para alguém responder por homicídio doloso nesse caso, tem de haver nexo causal com a espuma ou com o fogo. Se não é provado que a pessoa tem relação ou com a espuma ou com o fogo, ela não pode ser acusada de dolo", disse Joel Dutra, um dos promotores. Ao barrar os indiciamentos de funcionários do alto escalão da prefeitura, Dutra virou vilão na cidade e chega a ser hostilizado nas ruas. "Tentamos livrar a Justiça de receber algo sem fundamento."
Oito pessoas aguardam o julgamento em liberdade. Quatro por homicídio doloso: os dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, o Kiko, e Mauro Londero Hoffman; dois músicos da banda, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão. Outros dois por fraude processual: Gerson da Rosa Pereira e Renan Severo Berleze, bombeiros que deram laudo para a boate. E dois acusados de falso testemunho para proteger os empresários: Elton Cristiano Uroda e Volmir Astor Panzer. Os advogados de Hoffman e Santos não foram localizados; as defesas dos outros seis não quiseram se manifestar.
Sintonia. Para os familiares de vítimas, brigas políticas entre o governo estadual (PT) e a prefeitura (PMDB), além da falta de sintonia entre o MPE e a polícia, atrapalharam a responsabilização de culpados.
Uma CPI na Câmara Municipal não encontrou culpados. No fim de agosto, a Justiça também arquivou a denúncia contra o prefeito Cezar Schirmer (PMDB).
"Não vamos desistir de cobrar essas autoridades", disse Adherbal Alves Ferreira, pai de Jennefer Ferreira, de 19 anos, morta no incêndio. "Nenhum de nós vai conseguir paz se a justiça não for feita."
Ao me deparar com esse artigo, me senti ainda mais indignado com a situação caótica que nós, brasileiros, vivemos. Me amedronta ver como estamos sendo submetidos a todo instante ao descalabro e ao abandono, enquanto uma minoria vive sob a égide de um estado governado por um Cartel Político que conta com um quadro de servidores incompetentes e ineficientes. Que país é esse. Isso é um disparate, é uma vergonha para nós, povo brasileiro que vive sem proteção em virtude de uma justiça sem representatividade. Um povo que sofre com o descaso e o desrespeito aos seus direitos fundamentais e que parece estar anestesiado ante tudo que se passa à sua volta e que revela estar conformado com sua condição de incapaz!
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